Quem começou com essa moda foi o Panda: um colega de trabalho fez, gostou do resultado e recomendou a ele. No mês seguinte, lá vai o senhor meu marido para a mesa de cirurgia se livrar de seus oclinhos.
Não gostei. Preferia o meu Panda com ar de intelectual. Mas seja feita a vossa vontade, seja ela qual for, contanto que não prejudique ninguém, o que de fato não prejudicava, né?
Ele sofreu, passou dois dias deitado num quarto escuro, mal-humorado, mas aos pouquinhos ele foi se recuperando e agora, passados dois meses, estão quase tudo normal. Aí foi a minha vez.
Assim, quando era criança, eu quis usar óculos. Fiz até minha mãe fazer um par de óculos para mim sem grau, quando eu tinha 7 anos de idade. O lance é que eu detesto ser dependente deles. Tipo, se quebrarem quando eu estiver na rua, eu pego um taxi para ir para casa. E eu detesto isso, essa dependência.
A cirurgia dele foi inteiramente paga pelo convênio médico, o qual eu também tenho, na qualidade de cônjuge. E, minha gente… como é bom ter um plano de saúde bom! Plano de saúde que eu não preciso eu mesma ter que correr atrás de aprovação de exame. Plano de saúde que faz os exames ficarem prontos antes do prazo. Plano de saúde que abre portas dos melhores consultórios médicos.
Enfim, fui à oftalmo. De novo, a dúvida sobre a espessura da minha córnea, sim, porque eu tinha mil coisas que podiam ser finas em mim: a cintura, as bochechas, mas me foi nascer logo córneas finas. Fiz um exame específico e deu lá que era fina, mas ok, dá para fazer – mas eu tenho que me acostumar com a idéia do resíduo, porque vai sobrar o suficiente para um oclinhos de descanso para trabalhar e ler.
E fiz a tal da cirurgia na quinta-feira passada, dia do niver do Panda, 20 de maio.
Não contei para ninguém porque, sinceramente, não queria ouvir palavras de força e incentivo, ainda que eu sei que as pessoas estariam me desejando isso de coração ou por costume, mas antes, sem se desejar mal. É que 1) eu acho chato ficar respondendo “amém” e “obrigada” para todo mundo e 2) eu não estava e nem queria ficar nervosa, e talvez as tais palavras ativassem alguma parte do meu sistema nervoso central e/ou periférico e jorrase alguma ansiedade, alguma preocupação.
Pois bem. Só pouquíssimas pessoas sabiam da cirurgia e ninguém me ligou no dia, graças a Deus. No dia marcado, fui para o hospital, um mega chique no Morumbi, longe pra cacete, um absurdo de taxi (ida e voltava pagava uma castração de gata-fêmea na Dra. Amélia) , mas acho que ônibus lá nem passa.
Mandavam levar um acompanhante, mas acompanhante é para os fracos. Se a anestesia era local e nos olhos, se eu ia sair andando, para que acomphante, me diga? Fui sozinha, eu, meu tricô e um livro da Agatha Christie.
Me perdi na entrada. Ninguém sabia onde era o raio da sala de Excimer Laser. Bati em várias recepções, queriam me mandar para a fila enoooorme da internação. “Mas é micro cirurgia! É no olho!!! É oftalmológica. Eu não vou ficar dormindo aqui não!!!”. Aí, quando eu falei a palavra “oftalmológica”, foi o mesmo que dizer “abre-te sésamo”. De repente, me apontaram o elevador e me falaram que era no I4.
Cheguei no andar, depois de brigar com o elevador modernoso (me senti a própria Jeca Tatu sem saber pegar o elevador, shame on me!!!) e esperei…. esperei…. preenchi ficha e esperei…. tricotei… esperei… tricotei mais uma poquinho… esperei… percebi que estava tricotando errado, fiquei com raiva, guardei o tricô na bolsa, tirei o livro e li…. li… esperei… Até que fui chamada, já de touca e avental para a outra sala… esperei…. li… li… esperei… aí chamaram meu nome:
- Senhora Clara Quintela de Almeida (pausa para respirar) Rosa.
Aí eu fui para a mesa.
- A senhora está nervosa?
- Eu não, por que? Deveria?
- É que a maioria das pessoas ficam.
- Olha, não vou perder meu tempo com isso não porque a anestesia demora mais a pegar quando a gente fica nervosa. Se fosse ao menos um canal dentário…
Todos riram. Aí, começaram a falar comigo sobre tricô, porque me viram tricotando, enquanto a médica já estava lá passando um rodinho esfregando meu olho direito de um jeito que teve uma hora que eu perguntei se estava com o olho aberto ou fechado, porque havia perdido totalmente a noção. No meio da conversa, uma mão feminina segura a minha e começa a massagear.
- Quem está pegando na minha mão?
- Sou eu, a enfermeira fulana. É para a senhora não ficar nervosa.
- Ah, então foi você quem pegou na mão do meu marido, safada?
Riso geral.
- Oi?
A médica explica: É que o marido dela também fez a mesma cirurgia aqui, há dois meses.
- Ah… (sem graça) mas eu não pego na mão de todo mundo, não.
- Olha, nessas circunstâncias eu não vou ficar brava, não, viu? Aliás, você é a pessoa mais importante nesse recinto!!!
E assim foi até o fim. Os dois olhos. Primeiro ela esfrega, esfrega, efrega. Depois lava, depis e deixa lá com os zoiões abertos (um de cada vez) por um clip para receber o tal do laser. Não doi nada, só é um pouquinho agoniante. Meu medo mesmo era fechar o olho na hora errada e ZUUUMMM (ouve-se som de um sabre de luz) o feixe de laser passasse em cima da minha pálbebra e cortasse um pedaço e eu ficasse para sempre com os olhos abertos, como um peixe. Mas nada disso aconteceu.
Depois saí de lá, descrevi como era tudo para os meus companheiros de esperam (eles, sim estavam nervosos) e fui pegar o taxi de volta para casa. Antes, tomei logo um comprimido para a dor, just in case, antes que a anestesia passasse, fato que aconteceu tipo 5 minutos depois.
Pedi para chamarem um taxi, me informaram que era um Safira nº 20.
Fudeu, pensei. Se normalmente eu só conheço Fusca avalie agora, cegueta. fora que naquelas circustâncias jamais conseguiria ler um número à distância que não tivesse pelo menos 1 metro de altura por 1 metro de largura. E aí eu fiquei uns 10 minutos, debaixo do sol, lacrimejando parando todos os taxis que passavam por mim, até chegar o Safira nº 20.
O olho esquerdo não gostou e começou a reclamar. Fui para casa, dormir. Passei colírio, tentei ler e-mail, não deu. E o fim de semana foi assim. Passando o colírio. lacrimejando, tomando remédio para dor quando realmente a coisa não dava (mas metade da dosagem recomendada porque eu não gosto de tomar remédio).
Hoje estou no trabalho. Vou à oftalmo mais tarde para retirar as lentes-curativo que estão emporcalhadas desde quinta-feira sem lavar.
Ah, sim: enxergando bem mal ainda.