Seguindo indicação da minha amiga tricoteira psicóloga lesminha cegueta saltitante Sonia Augusto, entrei em contato com o Antônio Vaz Lemes, o Tunico, pianista e professor nas horas vagas.
Por mais que eu tenha praticado no fim de semana, obviamente o resultado seria, como de fato foi, desastroso. Vergonhoso, eu diria, porque para mim é difícil admitir não saber algo, ainda mais sendo por esquecimento. Mas é isso mesmo. Recomeçar é preciso, n’est-ce pas? Já falei sobre isso aqui.
Batemos um longo papo antes, para nos conhecer. Falei porque eu vim para São Paulo, o que eu fazia, o que eu gostava, onde eu vou trabalhar. Ambos gostamos do centrão da cidade e aptos antigos e amplos. Depois mostrei algumas peças que eu gosto, na esperança de que as que eu venha estudar sigam essa linha. Falei que detesto rock progressivo, jazz e qualquer outra música tipo “punhetação sem fim”. Gosto de música dramática, com começo, meio e fim como se contasse uma história – descobri ontem que meu estilo é minimalista. Ele explicou porque, mas de toda a explicação eu só me recordo da parte que ele falava que era um negócio meio hipnótico e variações dentro do mesmo acorde. Para entender melhor, procure a música The Heart Asks Pleasure First, do Michael Nyman para a trilha sonora do filme O Piano.
Por fim, tive que tocar. Toquei uns trechinhos das peças que tinha mal e mal preparado, ele elogiou o posicionamento das minhas mãos, forjado com muito esforço no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, com a tia Cira Leona, de quem eu guardo as melhores lembranças, uma das melhores professoras que já tive na vida. Fizemos uns exercícios (escola de si maior: si, do#, ré#, mi, fá#, sol#, lá#, si), porque Bethoven disse que essa escala é a que seria mais anatomicamente confortável para as mãos (=o pianista faz menos esforço para tocá-la), com estudo das passagens dos dedos. Ficou como dever de casa, para eu treinar e ganhar tônus e regularidade.
Por fim, a parte divertida: escolher o repertório. Como estou começando e estou muito ansiosa, combinamos de eu estudar uns minuetos de um tal de Johann Wilhelm Hässler, que eu não conhecia ainda. Os minuetos, nove ao todo, são curtíssimos. Alguns não têm mais que meia dúzia de compassos. Mas assim eu conseguirei ver algum resultado logo e me acalmar. Fora que não é porque são curtos que sejam fáceis. Tem mil coisinhas para ajustar, a começar pela dinâmica, porque eu nunca fui boa nisso.
Além desses minuetos, pensamos também numa peça contemporânea. Não entramos muito em detalhe nessa, ficou para ser decidida depois, mas acho que vai ser outra música d’O Piano, Big My Secret, se eu puder escolher. Por último, uma peça brasileira. De cara, disse que bossa nova eu não tocava nem a pau. Acho chato e sem graça. Pensei no Chico, ele pensou em Villa-Lobos. Aí, eu me lembrei de Hermeto Paschoal. Fui a um show dele anos atrás, quando ainda morava em Fortaleza, e simplesmente amei. Agora estamos procurando uma peça dele.
E é isso. Como dever de casa, a tal da escala de si e o primeiro dos nove minuetos, des. E terça que vem tem mais.
>> Saiba quem é o Tunico: www.myspace.com.br/antoniovazlemes
>> O Tunico em ação:
Fauré – Noturno opus 119 (o vídeo tem uns dois anos)
Poulenc – Mélancolie (outubro de 2009)